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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

OH, OH, VÓS QUEREIS IR PRA LÁ PRA TERDES GAJAS!



Desde que anunciou a sua candidatura Buenos não tem tido descanso com os pedidos que todos os dias lhe enviam: é um emprego para a filha, é um negócio com uma empresa, é um subsídio para uma associação, é uma oferta para fazer parte da lista, enfim. Se os outro Buenos ainda tolera, os pedidos para integrar a lista de candidatura irritam-no profundamente e aí dispara com toda a má educação que lhe é característica. Eles na primeira oportunidade foram-se oferecer:

TOC TOC!

Queim é?

Sou eu Buenos venho aqui dar-te os parabéns.

Oh Lau Lau senta-te. Carago já tiraste as calças cor de rosa, está poreiro. Então que contas?

Sabes que eu sou o Presidente do clube?

Sei, ei, atão num sei.

Sabes que tenho feito um excelente trabalho por todos reconhecido, pode-se dizer até que o clube está melhor do que nunca.

Atão num está do que nunca, deus me livre se está. E então?

Vinha saber se precisavas de um tipo como eu para a tua lista, aí como número 3.

E o que é que ias fazer depois?

Oh pá, estava a pensar ser vereador com o pelouro do desporto, pela experiência que tenho.

OH, OH, VÓS QUEREIS IR PRA LÁ PRA TERDES GAJAS!

No dia seguinte batem de novo à porta:

TOC TOC!

Queim é?

Ei Buenos venho aqui falar contigo sobre um assunto sério.

Oh grande Repolho, então que te traz por cá?

Sabes que eu sou o Presidente da Ordem dos Repolhos, num sabes?

Sei, atão num sei.

Toda a gente diz que eu tenho feito um trabalho celente, notícias nos jornais e tudo.

Atão num tens, sempre notícias nos jornais e tal, sim senhora. E então?

Oh pá, estava aqui a pensar se num precisavas um vereador para o pelouro do Repolho, para apoiar por exemplo nestas calamidades do mau tempo.

OH, OH, VÓS QUEREIS IR PRA LÁ PRA TERDES GAJAS!

Sexta-feira e quando já arrumava as suas coisinhas para ir para fim de semana tocam à porta:

TOC TOC!

Quem carago será agora. Queim é?

Ei Buenos sou eu o %, lembras-te de mim?

Atão num lembro.

Sabes que eu fiz um excelente trabalho nesta casa, sempre em parceria contigo, trabalho que foi elogiado por todos. Comigo pelo menos nunca falhou a percentagem.

Pois não, nunca falhou, deus me livre. E atão que queres?

Ouvi dizer que estás à rasca para arranjar os nomes prá tua lista.

Quem foi que te disse?

Foi o Aires.

O Aires? Eu nem conheço esse carago.

Mas olha, ele disse e eu vim logo aqui falar contigo. Pensei que entrava bem a número 3.

Intravas sim senhora, atão num entravas? E que ias fazer na tua opinião?

Acho que intrava bem com o pelouro das obras, pela experiência que tenho. Nunca a percentagen ia falhar rapaz!

OH, OH, VÓS QUEREIS IR PRA LÁ PRA TERDES GAJAS!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

buenos queria escrever um livro


Buenos estava triste. Quando soube que o Gonzaga ia lançar um livro, ainda por cima na biblioteca de praia dele, o Diana-bar, lavou-se em lágrimas de desgosto: atão eu que tanto dei à causa pública num tenho um livro. Num se faz pá!
Carias põe um bigode e vai ao Diana ver o lançamento do livro do Gonzaga e compra um. Mas só tragas um, num vá a peste espalhar-se, da-se!
Carias chegou ofegante de tanto correr. Viestes a fugir da polícia ou quê home? Mostra.

"JARDIM À BEIRA-MAR PLANTADO"

Que título bonito!

Tem figurinhas?

Queres as figurinhas pra quê Carias? Desaparece.

Buenos abriu o livro, mas como já vê mal não conseguiu passar da primeira linha. Da-se! Fazei livros com letras grandes, gritou ele para a capa onde estava a foto do Gonzaga.

Firmino onde estás? Estou em casa a ver o Django. Anda já práqui para me leres o livro do Gonzaga.

Alô Repolho chega aqui e traz o %. Já vou patrão.

Alô Daniel Estafermo!

Estafermo é o meu primo, eu sou o Bastardo.

Bastardo passa aqui na sede que vamos ler o livro do Gonzaga. E traz o Peras contigo.

É preciso levar binho?

Da-se só pensa nisso.

Todos reunidos Buenos centrou-se na capa: quem é este gajo?

Sou eu qandera mais novo.

Tu Bastardo!! És feio. Digo-te mais se num fosse o cabelo eu ia dizer que era o Firmino.

Aqui Firmino começou a chorar. Gozainde, gozainde!

De repente Repolho fica branco: pá táqui a reportagem fotográfica.

Adonde, adonde?

No jornal do Gurguilho.

Amostra!

Pá, ai o Dimas, exclamou Firmino.

Buenos não conteve a revolta: tás marcado Dimas!

Pá e o Rui Coelho. Virou outra vez.

Tás marcado Rui Coelho. há-des querer ir à sopa dos probres e num poderes, disse Buenos em tom ameaçador.

Pá lende-me agora o livro do Gonzaga que eu já num vejo nada à minha frente.

Firmino começou a leitura: 

"Desde que me lembro que vivo na Póvoa, uma vila de pescadores e virada para o mar, onde o sol passa o Inverno".

Da-se! Parece que foi o Agonia que escreveu esse livro, indignou-se Buenos. Continua Firmino.

"Na Póvoa havia um autarca que vindo do nada e com uma mão à frente e outra atrás fez fortuna em pouco tempo, tudo à custa dos empreiteiros... ..."

Da-se Firmino é pra ti esta carago, apanhou-te o malandro.

Eu não, eu sou o dos livros.

Atão és tu %, tens mesmo a pinta desse autarca. Vai Firmino continua.

"De seu nome Buenos tinha a mania que comia as mulheres todas... ..."

Ei ei pára aí, que raio é isso? Liga-me já ao Gonzaga.

Alô Gonzaga!

=^"""$$$$/)/)

Calma, calma amigo, é o Buenos teu grande amigo de carteira.

&%%%$$$)===0000

Da-se é assim que se fala com um home?

VAI"""$$$$&/)()()(

Há-des pedir um subsídio, tu há-des!

Continua Firmino.

"Sinto que o meu tempo e a minha vida estão no fim e por isso me despeço dos leitores e até à vista ou até ao meu regresso espero eu".

Num voltes mais carago, num voltes mais!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

buenos queria feedback


O Carias, o Duardo e o Nando não convenciam Buenos sobre o que os poveiros pensavam das ideias dele. Pessoal da patanisca de bacalhau, do vinho tinto, das tainadas e depois era: é o maior, está ganho, 10-0, respondiam eles.
Posto isto, Buenos resolveu ir para o terreno, auscultar pessoalmente as pessoas, ouvir os sentimentos do cidadão. 
Sentou-se na esplanada do Café da Esquina onde paravam muitos empresários, professores, doutores e engenheiros.
Sentindo que dois empresários conhecidos conversavam na mesa ao lado, Buenos aproximou a cadeira:
"Quando a gaija tirou a roupa tinha as mamas todas ferradas das pulgas e eu ei que é isto ó?" 
Ei carago estes são empresários putanheiros, pensou Buenos, logo arrastando a cadeira para próximo da mesa ao lado, onde aparentemente estariam duas professoras:
"O raio do belho anda incanzinado, outro dia até tive que fugir senão ele puxava-me a saia."
Ei carago peixeiras, pensou Buenos.
Desanimado regressou a casa tendo adormecido logo de imediato.
Às seis da manhã toca o telemóvel. Buenos olha de soslaio: "DESPROTECÇÃO CIVIL".
Que é que estes caragos querem?
Tou!
Dr. Buenos benha rápido que foi tudo pelos ares.
Adonde, adonde?
Nas estufas. Benha, benha daí.
Quando Buenos lá chegou, munido do seu capacete da Desprotecção Civl já o Outro, todo molhado, se desfazia em entrevistas para as rádios.
Anda moinante, já estás aqui franciscano do carago.
Os trabalhadores rodearam Buenos: Oh Sr. Doutor salve-nos que a gente está perdida.
Calma que vamos tratar de tudo. Já falei com a Ministra Galinha e ela disse que deve haver uns dinheirinhos que sobram.
O Dr. Buenos é o maior, pessoal. Viva o Dr. Buenos! Viva!
Ficou tudo destruído?
Não Dr. Buenos inda temos aí batata, cenoura, cebola e feijão verde.
O quê? Pera aí: alô 1, 2 chama Satiro.
Aqui Satiro Doutor.
Satiro pega no Inácio e inde ao porto de pesca apriender dois robalos, mas olha quero fresquinhos.
Tá bem Doutor.
Entretanto Buenos tratou de ligar para o seu amigo Gurguilho para fazer a reportagem fotográfica para o jornal: Anda Gurguilho, anda que isto vai dar que falar. É a vitória garantida, vai ser votos que nunca mais acaba, disse Buenos eufórico. 
Gurguilho parecia a sombra de Buenos, com o capacete da Desprotecção Civil igual que este lhe havia oferecido no aniversário.
Até que de repente gerou-se o silêncio. Buenos olhou em volta aterrado: será que vem aí outro temporal?
Duas carrinhas estacionaram, uma do canal 1 e outra do canal 3.
O Outro tratou logo de chamar as duas para a beira dele, mas Buenos impôs-se: ei, eu é que sou o candidato, eu é que falo.
Ei mas eu ainda sou o Presidente, eu tenho que prestar contas à população, respondeu o Outro.
Discussão acesa, quase a chegarem a vias de facto, até que alguém se intromete e diz: fala um para um e o outro para outro.
E lá apareceu Buenos no 1 e o Outro no 3.
Os presentes gritaram em uníssono: Vitória! Vitória! Vitória!


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

unta-lhe as mãos, carias!

Quando o Outro lembrou a Buenos que tinha que apresentar ao eleitorado o seu programa de candidatura, este nem hesitou na resposta: num é preciso! O Outro encolheu os ombros e seguiu caminho. É que Buenos já estava calejado nestas andanças e, sempre seguindo os ditames do mestre de Gondomar, o que era preciso era untar as mãos aos tipos certos, aqueles que se intitulavam ferrenhos nas suas convicções, mas que Buenos sabia que oscilavam ao primeiro abanão. Munido do necessário e eficiente unguento, fornecido pelo Banco Central Europeu e acompanhado do sempre leal Carias, Buenos pôs-se na estrada.
Onde vamos Inginheiro?

Num me chames Inginheiro, chama-me doutor.

Num estou habituado.

Vamos fazer uma visitinha  ao Daniel Bastardo.

TOC! TOC!

Queim é?

É o doutor Buenos, gritou o Carias de pulmões cheios e pleno de orgulho.

Já vou. Oh Doutor Buenos, bem disposto?

Então Bastardo, estás poreirinho?

Vai-se andando. E então?

Bastardo queria que te candidatasses a esta nova Junta pelo meu partido.

Oh Dr. Buenos, sabe como é a gente vai ficando velha, perde o interesse, a fama dos políticos já num é boa e acho que é tempo de dar o lugar aos mais novos.

UNTA-LHE AS MÃOS CARIAS!

Obrigado Dr. Buenos, vou comprar um fato novo.

Compra dois, o outro fica póano!

Carias Vamos embora visitar outro.

Quem Dr. Buenos? 

Chamaste-me Doutor, é assim mesmo. Vamos visitar o Quim Roscas.

TOC! TOC!

Queim é?

É o Dr. Buenos, disse logo o Carias.

Roscas estou aqui para te convidar a fazer parte da minha comissão de honra.

Pois é Dr. Buenos, eu sou um intelectual de esquerda, compro livros, sou contra a pena de morte, quase que fui um militar de Abril e já disse sim à candidata Ervilha.

UNTA-LHE AS MÃOS CARIAS!

Obrigado Dr. Buenos, vou comprar um boné novo que o outro já está cheio de sarro.

Compra dois, um póverão e outro póinberno.

Vamos embora Carias visitar o Carlos Peras.

TOC! TOC!

Queim é?

É o Dr. Buenos, disse o Carias enquanto fazia caretas virado para a porta.

Peras quero que sejas tu o meu candidato à nova Junta em frente ao Mar.

Dr. Buenos fico muito honrado, mas tenho um compromisso com o partido em que me candidatei e com a população que confiou em mim, para além de que sou um homem de palavra e gosto de cumprir com quem me apoiou.

UNTA-LHE AS MÃOS CARIAS!

Obrigadinho Dr. Buenos, vou já comprar um frasco de brilhantina.

Compra dois, num vá o preço subir por causa da gasolina.

Vamos embora Carias!

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

buenos ganhou no plenário

A ansiedade desgastava-o a tal ponto que eram incontáveis as noites mal dormidas, mesmo sabendo que a escolha pela Comissão era decisiva para a decisão do plenário, mesmo sabendo que uns e outros eram os mesmos, com a única diferença de na segunda reunião do partido ser obrigatório o uso de fato e gravata. Buenos era assim: exigente, organizado e transparente, como o próprio gostava de se definir.
No dia e hora marcado apresentou-se com o seu melhor fato, logo seguido do Carias, do Duardo e do Barrigana, todos com as calças curtas, devido às barrigas entretanto conseguidas pela prosperidade de ser funcionário público.
A presença do chefe da Distrital, o Cienvezes, atemorizava Buenos que via nele um aliado do Outro sempre pronto a fazer-lhe a folha, de forma que tudo estava delineado e planeado até ao mais ínfimo pormenor.
Meus senhores e minhas senhoras, começou Buenos, mesmo sabendo que não havia senhoras, mas a tentativa de impressionar Cienvezes superava a gaffe.
Estamos aqui reunidos para escolher o perfil, sim, escolher o perfil do nosso candidato para as eleições de 2013.
Muito bem, gritaram Carias, Duardo e Barrigana, no que foram seguidos pelos restantes.
Na folha que vou agora distribuir podem ver o perfil que o partido pretende e, de entre todos o que melhor se encaixar será o escolhido. Continuou Buenos.
Nesta altura sentiu-se alguma agitação. È que no fundo todos achavam que possuíam o tal perfil, até que as folhas começaram a circular e a figura só podia ser uma.
Eia que bicanca! Disse o Carias.
Carago este tem uma penca que parece o Dr. Gavião, disse o Duardo.
O Barrigana é que achava que era ele e ficou chateado por causa do nariz pontiagudo. Filho da puxa que desenhou isto baimas pagar, disse ele fora de si.
Calma Barrigana já bamos comer uns rajões, disse Buenos.

Este era o perfil:

 

Até que Buenos se colocou de lado e aí todos perceberam que havia marosca. O perfil já estava traçado antes do tempo.

Se tivesse bigode parecia o Outro, alguém disse.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

o outro num sabia a seinha!

Buenos preparou tudo no máximo secretismo. Nem o Outro soube. Quantos menos melhor, pensava ele. E estes são burros, mas são bons. É que dentro do partido existiam duas facções, os Buenistas e os anti-Buenistas, e o Outro embora viesse cá para fora dizer que o apoiava, entre os seus manifestava um ódio de morte por aquele que queria ser o seu sucessor.
Os 10 em que Buenos confiava encarregaram-se de marcar a reunião que o iria aclamar. Não era problema que fossem apenas 10, o importante é que a votação fosse por unanimidade, dos presentes, fosse em que número fosse. Eram os shushaines do Buenos, os seguidores, os empregados. O leitor não sabe o que é um shushaine? Veja:


Na hora da votação o Domingues hesitou entre levantar a cartolina verde, em sinal de apoio, ou a vermelha contra.
Que foi Domingues? Queres binho? Perguntou-lhe Buenos.
Foi neste momento que se ouviu três estrondos na porta que estremeceram os corações dos presentes, tanto que Buenos receou que fosse um golpe de estado.
Inde ber quem é!
O Outro andava desconfiado de que algo importante estava para acontecer e, na qualidade de militante, achou que tinha o direito de saber o que se passava. Como ainda se rodeava de militantes que se relacionavam com o Gurguilho, tratou de o levar para a naite na companhia de mulheres voluptuosas, algo que ele nunca tinha visto. Copo puxa copo, mama puxa mama, e Gurguilho, o porta-voz de Buenos para a comunicação social, abriu o jogo e entregou de mão beijada a hora e o local da aclamação política de Buenos.
Quem é? Gritou o Carias que após a reforma resolveu andar a sondar de bicicleta a opinião do público sobre Buenos.
É o Outro, respondeu o Outro.
Quem é o Outro?
Aqui o Outro ficou confuso e telefonou ao seu único amigo, o Firmino.
Firmino amigo, quem é o Outro?
O outro és tu.
Ai eu é que sou o Outro? Porreiro carago.
O Outro sou eu, respondeu o Outro para o Carias.
Aqui o Carias ficou confuso e foi perguntar ao Duardo, que também tem uma bicicleta, se ele sabia quem era o Outro.
É fácil. Pede-lhe a seinha.
O Carias vem à porta e grita: qual é a seinha?
Oh carago esta num sei, pensou o Outro. Vou telefonar ao Firmino.
Firmino qual é a seinha?
Deve ser: cultura e lazer é prazer até morrer.
O Outro gritou em tom vencedor:
Cultura e lazer é prazer até morrer.
Do outro lado ouviu-se: oh bai enganar o carago!
Firmino num é essa a seinha.
Atão experimenta esta: Depois de mim é o caos.
Depois de mim é o cão, gritou o Outro.
Que cão pá? Baitimbora!

O Outro foi-se embora a pensar que da próxima vez seria melhor comprar bilhete antecipado.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

buenos era comilão

Buenos sentia-se poderoso na Câmara. Não tinha que dar satisfações a ninguém. O único que estava acima dele ainda mais preguiçoso era. Levantava-se às 9 da manhã e de imediato se deslocava para o ginásio construído com o dinheiro dos contribuintes, onde treinava pugilismo. Só por volta do meio-dia pegava ao serviço. O Outro não se importava porque à tarde ia para o restaurante do sócio falar de compra e venda de terrenos e a coisa ficava ela por ela. Sobrava tempo para apreciar as beldades que ia recrutando sempre que presidia a um concurso público. O cheiro a Chanel inebriava-o e transportava-o para cenas de sexo escaldantes.

Este Xanel está estragado, vociferou ele quando entrou um candidato barbudo a cheirar a alho.

Buenos excluía-os na primeira oportunidade. Só gaijas, dizia ele para o secretário do concurso.

A fama rapidamente se espalhou: era a mulher do Xaimite, era a do João Contador, era a do Gervásio, Buenos comia todas sem apelo nem agravo.

Quem desconfiava mantinha-se em silêncio com medo de represálias, já que Buenos quando se preparava para os combates de pugilismo tomava sempre um composto energético que o punha como o Popeye. Oh:


Um murro nas costas de Buenos era uma certidão de óbito, de forma que os seus mais directos colaboradores assustavam-se sempre que o viam sob o efeito do composto.

É um bixo meu, dizia o Zacarias.

Um dia aconteceu o escândalo que Buenos tanto temia, já que a esposa se cortasse relações poderia deitar tudo a perder no que a corrupção dizia respeito.

Verificou Buenos que, após descarregar o autoclismo da casa de banho privada do gabinete, surgiam sinais de entupimento pelo borbulhar da água.

Badalhocos que deitam as piriscas prá canalização! Disse ele.

De imediato chamou por rádio os funcionários encarregados desse tipo de serviços:

Onde andaindes?

Estamos a desentupir um cano Dr. Buenos.

Binde já ó meu gabinete queu tenho aqui um servicinho.

Quando o Nando e o Ferreira começaram a limpar o cano deu-se a surpresa:

Ó Doutor isto tá xeio de balões carago!

Que estais pra aí a dizer pá? Indignou-se Buenos.

Num é balões, é camisas de bénus xeias de ar, disse o Nando.

Xeias de ar não, indignou-se novamente Buenos.

A partir desse dia Buenos passou a ter um pacote de bolachas de baunilha para comer sempre que tivesse fome. A esposa tratou de colocar a irmã a vigiá-lo hora a hora e Buenos largou o pugilismo, pois o musculo para nada servia.



sexta-feira, 19 de outubro de 2012

o outro queria ser rei

É a maior incógnita da política local: quem convenceu o Outro de que isto era uma dinastia. A expressão teve tal impacto na sua vida que ele sonhava quem poderia ser da sua família o seu sucessor. Sim porque ele quando ouviu a palavra dinastia foi ao dicionário ver o significado. Que porreiro! Disse ele em frente ao espelho. Ora poderia ser o meu irmão, ou o meu primo, ou o meu filho, ou a minha tia, tanta gente que me poderia suceder. É sinal que tenho gente com qualidade na família, eh eh eh! Ria-se ele todo babado.
Saiu para a rua e virou-se para os cidadãos: isto é uma dinastia e eu vou ter um sucessor.

É pá, vais ser o rei então. Olha, tens que trazer a croa amigo. Dizia o Damião envolvido com a oposição.

Já o Venâncio do mesmo partido gritou bem alto: é preciso tê-los no sítio pra ser rei.

Eh eh eh! Ria-se o Outro. É verdade e eu tenho-os.

Mas num mostres, da-se, inda dizem que és um cavalo de corrida, respondeu o Damião.

Chegado à Câmara o Outro foi logo ter com Buenos que estava a ler uma entrevista do seu chefe aqui do Norte: Buenos, Buenos vou ser rei, tenho uma dinastia.

Ai vais? E quem te disse isso?

Todos dizem, todos me reconhecem como rei. Sou rei, sou rei, sou rei! Gritava o Outro. Achas que convide o meu primo para me suceder?

Qual? O que está sempre no Gato Preto?

Não, aquele que tirou o curso com o Relvas.

Ah!

Buenos que tinha tudo programado para assaltar o poder não gostou nada da brincadeira e, em desespero, passou a frequentar os cafés mais badalados, aqueles onde a oposição se reunia, onde os comparsas discutiam política, onde os empresários seus amigos jogavam poker.

Então Jesuíno o que se diz por aí de mim?

Diz-se que tu és um chulo agarrado ao poder.

Quem foi que disse isso keu parto-lhe já as bentas.

No clube dos empresários: Oh Dr. Pedro São Félix então o que se diz por aí de mim?

Diz-se que tu o que queres é apartamentos de borla.

Quem foi que disse isso?

Todos dizem.

Buenos começou a temer pelo seu futuro político, mas num passe de magia tramou uma solução para entalar o Outro, o rei.

Tá Outro? Diz Buenos, respondeu o Outro a conter o riso por ver que Buenos ia de vela, por ser tão fraquinho.

Precisamos reunir para definir estratégias.

Vamos, vamos reunir, respondeu o Outro cheio de felicidade.

À hora marcada estavam todos, menos o Outro que chegou atrasado 30 minutos. Sentou-se em silêncio.

São horas de chegar? Perguntou Buenos.

Sabes que eu sou o rei e chego à hora que quero, disse com sobranceria o Outro.

Buenos iniciou o discurso:

Meus amigos, como sabem, o partido está a estudar o nome para suceder aqui ao Outro. O Outro não gostou desta introdução. Nós somos uma democracia e é a maioria quem decide. Então o partido decidiu que sou eu quem vai candidatar-se.

Porquê tu? Perguntou em pânico o Outro.

Porque eu soi presidente do partido e eu é que decido.

Mas assim não é uma dinastia isto?

Pois num é não.

O Outro saiu em desespero e perante a falta interna de apoios, já que Buenos controlava todo o aparelho, foi para as rádios apresentar-se como a chave para a solução:

Eu já estou farto de dizer quisto num é uma dinastia, em que vai de família para família, isto é uma democracia e quem decide é o partido e como ele é o presidente do partido, ele acha que tem condições para ser ele o candidato. Disse o outro com a espuma no canto da boca enquanto controlava a raiva.

Entretanto algures Firmino sofria: ai que tou doentinho!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

buenos queria ser chefe da polícia

A maior aspiração de Buenos enquanto político era ser chefe da Polícia, não a polícia dele que, essa, ele detestava, porque achava que não passavam de gordos, parasitas e medrosos, mas a outra polícia. Os momentos mais felizes da sua alegre vida na Câmara tinha-os Buenos quando ocorriam eventos desportivos, em que a Polícia estava em peso. Buenos chegava ao local de forma triunfal, colocava-se em sentido e batia a continência aos agentes. A seguir iniciava aquela amena cavaqueira em que assuntos como o futebol, o governo e gajas vinham ao de cima. Quando via algum opositor entre a assistência, Buenos aproximava-se dum agente e iniciava um banal diálogo sobre o tempo, os turistas ou o aumento de vencimentos dos agentes, sempre com o polegar apontado para trás para dar a entender que o tema de conversa era esse tal sujeito e que supostamente estaria a dar instruções para o deter. Olhava várias vezes para trás e ria-se. Os mais incautos amedrontavam-se e fugiam com receio de serem detidos. Já foste meu marmelo, dizia Buenos triunfante.
Já da sua polícia Buenos, se pudesse, mandava-os a todos plantar couves para o campo. Cambada de malandros, dizia ele para os correligionários políticos.
Recorda com frequência um episódio ocorrido numa conhecida praça da cidade, em que mais uma vez teve que apelar aos serviços dos amaldiçoados agentes.
São Félix era o empreiteiro que ganhava todas as obras na cidade. Ganhava ele as obras e Buenos prendas, como relógios caros, viagens, automóveis topo de gama e até apartamentos que ele combinava para que continuassem em nome do construtor para não levantar suspeitas, não fosse algum energúmeno da oposição denunciar junto das autoridades.
O São Félix ganhou a construção dum parque de estacionamento subterrâneo, mas exigiu a Buenos que todo o estacionamento à superfície fosse pago e bem pago, mais caro do que debaixo da terra, de forma a que todos passassem para o andar de baixo e ele tivesse mais lucro e pudesse dar mais prendas a Buenos. Este tipo de conversa deixava Buenos louco de felicidade.
O problema é que ninguém gostava de pagar parque só para ir ao banco, tomar um café ou ir almoçar a casa da sogra. E Buenos sabia disso perfeitamente, tanto que aproveitava os locais de cargas e descargas para deixar lá o seu carrinho, enquanto tratava dos assuntos que o apoquentavam no dia-a-dia.
Até que um dia o local estava todo ocupado e Buenos não tinha lugar: filhos da pruta que me andam a dar cabo da vida, vociferava ele. Ligou para o Bino, chefe da polícia e perguntou:
Onde tão teus homes pá?
Tão a trabalhar.
Chama-os já aqui para vir multar estes caragos que abusam da pacência dum home.
Lá chegados os agentes trataram de cumprir ordens, vindas de dentro do automóvel de Buenos, o qual se escondia para o pessoal não saber que era ele que estava por trás da malfeitoria.
O primeiro a ser multado ia ser um BMW, mas o agente foi rapidamente dissuadido: pá esse não boi, deve ser do Doutor Celestino, és tolo? Multa aí esse Fiat 127.
De repente chega o dono: questa merda pá?
O senhor está no cargas e descargas.
Estou porque estou a descarregar.
Vai lavar as cuecas pá! Ouviu-se de repente.
Espaço livre e Buenos ocupa a seu bel-prazer, toma um café, vê se a conta bancária já está a actualizada com o vencimento do empreiteiro e ainda foi dar um beijo à mulher que tinha uma nova funcionária a quem ele andava a piscar o olho.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

o golpe fracassado do firmino

Firmino viu a luz ao fundo do túnel quando o Outro o convidou para ser o Presidente do partido. Pensou: de presidente do partido chego a presidente da Câmara em dois tempos, eheheh!
Antecipando a entrada das mulheres na política, Firmino tratou de contactar uma moça que cantava no coro da Igreja e assumias as vestes de catequista nas horas vagas. Tem o perfil que me interessa, pensou Firmino.

Firmino tinha uma visão romântica das mulheres. Recorda um certo dia em que acompanhado pela Maria Celeste, a sua assessora para a cultura, lhe perguntou a idade: Oh pá que maçada Firmino! Olha tenho anos perdidos no tempo, respondeu ela.

Oh que romântico Maria Celeste!

Oh pá, olhós pássaros a cantar meu, olhas as folhas a cair.

Oh Celeste já me deixaste deprimido, pá. Aquele que vem ali não é o Eça de Queiroz?

Não, esse já morreu.

Oh que tragédia em três actos.

Já Buenos tinha aquela visão carnal típica do homem musculado, do homem que reage com violência, do homem que cospe para o chão. Para ele só havia duas expressões para caracterizar as mulheres: “eia que mamões” e “eia que coxões”. Tudo o mais era palha, era perda de tempo.

De forma que, para responder a Firmino, tratou de arranjar para sua número 2 e mulher de confiança uma moça que vendia pipocas na rua, dava explicações de francês e fazia musculação no ginásio do Jiló. Era conhecida por todos pela Maganinha das Pipocas.

A comandar a juventude estava na época um parte-pedra que só sabia organizar jantares em que chamava a comunicação social para dizer que iam abordar os problemas dos jovens. Iam nada, iam era espreitar as coxas das colegas do partido por baixo da mesa, os sacanas. Mas tinham o apoio do Buenos que era o que interessava.

Quando a catequista de seu nome Assunção largou o microfone da Igreja para assumir os destinos da juventude, tratou de enviar recados redigidos pelo Firmino para impressionar os cidadãos.

Nos próximos três meses, dizia ela em directo para as televisões, vamos organizar palestras sobre os jovens e convidar figuras de renome para esclarecer os pais sobres os problemas da infância e da adolescência. Vai ser um por mês, gritou com ar triunfante. Vamos visitar as aldeias e auscultar os jovens que trabalham o campo, é, que trabalham a terra, é, que levam o gado a pastar. É, diziam todos em coro, tal e qual como na Igreja.

Buenos nem acreditava no que ouvia: esta gaja está a sair dos cascos. Preocupou-o a corrida que o parte-pedra tinha levado nas eleições, mas fraco por fraco mais vale ir duma vez. Mas as ideias que ela apresentava deixavam-no com a pulga atrás da orelha.

Entretanto Firmino regozijava de felicidade. Estou no caminho certo, estou no caminho certo, esta Assunção é poetisa de certeza. Oh que paixão, dizia ele já vendo poesia por todos os lados.

Os meses foram passando, foram passando sempre lentamente até que a Assunção desapareceu de circulação. Quanto à Maganinha exibe a sua musculatura, meteu uma funcionária a vender as pipocas e quer ensinar francês aos comerciantes para eles entenderem o inglês dos turistas.

O golpe de estado do Firmino fracassou e já há quem diga que quer dizer adeus à política.






segunda-feira, 24 de setembro de 2012

os ciúmes de firmino

Firmino sentiu que foi um sonho tornado realidade, tipo conto de fadas, o convite que o Dr. Outro lhe fez para ser vereador. Famoso entre a população jovem, enquanto professor, por ministrar as aulas de forma cantada, tipo missa do galo, de que é exemplo o ensino de Sócrates:

Sóóócraaateeees fooooi um graaaaande filóóóósoooofooo! E os alunos: Ámen!

Ainda agora os seus antigos alunos quando com ele se cruzam cumprimentam: sóóóocrates foooooi… …

Mas depois do que se passou com o verdadeiro Sócrates, Firmino não permite o termo do cumprimento e responde ferozmente: foi o carago!

Tirado deste inferno por um convite inesperado, Firmino sempre se sentiu o protegido dentro da Câmara. Embora Buenos mandasse em tudo, Firmino sentia que o seu destino era suceder ao Outro, e o Outro esse desiderato tinha para Firmino. Mas Buenos, com aquela esperteza que lhe é característica, tratou de em conluio com Gurguilho fazer a cama a Firmino perante o olhar aterrado do Outro que passou a encolher os ombros.

Gurguilho só publicava no seu jornal fotografias de Buenos. Era em em fato e gravata, era com calças de ganga, era com fato-macaco, era com calções de banho ou equipado de pugilista, o seu desporto favorito. Já Firmino só aparecia rodeado de livros. Era a Mariazinha que apresentava um livro, era o Góis outro, era o Estevão outro, e Firmino ali como sentinela com uma cabeça do tamanho do mundo.

O seu orgulho foi ferido de modo violento quando se deparou com a entrevista do Dr. Se Vier no jornal do Gurguilho.

Ei Buenos podias ter-me avisado meu, sou um homem da cultura, disse Firmino por telefone do gabinete dele para o do Buenos.

Tem calma, tem calma, o Se Vier tá controlado.

Quando é que me arranjas uma para mim?

Gurguilho tinha uma dupla função junto de Buenos: por um lado publicar tudo o que lhe dizia respeito e, por outro, descobrir todos os podres daqueles que se lhe opunham. Em ambas as funções Gurguilho demonstrava extrema eficácia. Quando um tal de Serafim passou a escrever ums crónicas num jornal da concorrência em que apelidava Buenos de chulo, corrupto e gatuno, Buenos chamou de imediato o contabilista para saber quanto dinheiro havia nos cofres para lhe meter um sangrento processo. Perante a resposta de zero, Buenos telefonou a Gurguilho:

Gurgulhinho meu menino?

Sou eu Buenos.

Preciso dum daqueles teus servicinhos suxos.

Ai é? Quem é ele?

Um tal de Serafim, revolucionário. Vê se é casado e se for trata de saber se é corno. Percebestes?

Percebi chefe.

Gurguilho tinha vários disfarces para seguir estas personagens que incomodavam Buenos. Pegava num chapéu e enfiava à força por cima da cabeleira que mantinha em bom estado, tipo Reginaldo Rossi. Oh:

Embora achasse perfeito o disfarce toda a gente percebia que era Gurguilho. É que só ele e o Beky tinham uma cabeleira estilo Reginaldo, sendo que um imitava o outro.

Alô Buenos?

Diz-me-le, diz-me-le!

É corno.

Num publiques no jornal, guarda no bloco.

Qual bloco?

Aquele caderninho que eu te dei, burro. Escreve lá isso e guarda pra mais tarde, pra num te esqueceres.

Firmino ficou feliz quando dois dias depois recebeu um telefonema de Gurguilho para agendar uma entrevista.

Vê-me lá o que vais dizer, tu vê-me lá, num me estragues a caundidatura! Disse-lhe em tom de aviso Buenos.

Só vou dizer que não me arrependo de nada do que fiz.

Prontos outro que vai chorar.








segunda-feira, 17 de setembro de 2012

o dr. se vier é o candidato

O Dr. Se Vier estava farto da vida que levava, aquela rotina de se deslocar para o Hospital e para o Centro de Saúde sempre atrasado, quando não faltava, deixava-o doente e, antes que precisasse de um médico o Dr. Se Vier achou que era tempo de colocar um ponto final.
 
O Dr. Se Vier a que horas vem menina?
 
O Dr. Se Vier  se vier vem daqui a meia hora.
 
Ai, que eu tinha a minha consultinha para as 10 horas. E agora o que faço?
 
A senhora aguarde que pode ser que ele venha.
 
Entretanto um outro doente do Dr. Se Vier meteu-se na conversa e disse:
 
O Senhor Dótôr Se Vier vem atrasado.
 
Incomodado com esta fama que o dava como desleixado e face ao vazio de candidaturas do Partido Sindicalista, Se Vier sem dar cavaco a ninguém foi ter com o Gurguilho, dono do jornal controlado pelo poder, para agendar uma entrevista.
 
Ei Gurguilho já num te via há mais dum ano. Pareces o Beky com esse cabelo.
 
Gurguilho achou, no tempo em que nadava em dinheiro, que ter um jornal era a melhor forma de colocar em papel o hábito de coscuvilhar a vida dos outros. Assim o pensou melhor o fez, até porque a mulher, de nome Carminda, tinha tirado um curso de jornalista numa Universidade que nem o Relvas tinha coragem de frequentar. A primeira medida que tomou foi publicar um editorial em que alardeava a independência relativamente aos partidos políticos, porque eram os culpados de todos os males do mundo. Só que quando se apercebeu que a Carminda não tinha qualquer jeito para a escrita Gurguilho tentou correr com ela e mandá-la para o desemprego. Só mais tarde e no próprio dia se lembrou que Carminda era a sua esposa. Foi o desastre. O jornal começou a definhar, a definhar, os jornalistas sem receber, as dívidas a acumular. Gurguilho, aconselhado por um especialista em vigarices, fecha o jornal e abre outro. Foi aí que o Dr. Se Vier viu a oportunidade de uma vida.
 
E tu Se Vier que é feito de ti?
 
Ei pá Gurguilho sabes como é, o pessoal do partido num se entende e é nestas alturas que nós, os corajosos, temos que aparecer e dar a cara. Num me arranjas uma entrevista no teu jornal?
 
Pá Se Vier tenho que falar primeiro com o Buenos.
 
O Buenos era o gajo que mandava na Câmara. Chamavam-lhe Buenos porque ele tinha a fama de divulgar pelas esquinas as viagens que fazia, pagas pelos empreiteiros e quando foi a Buenos Aires um amigo perguntou-lhe: então que tal Buenos Aires? E ele respondeu: Buenos, Buenos.
 
E ficou o Buenos. Os cidadãos já nem sabem o nome dele, todos o conhecem pelo Buenos e ficam aterrorizados só de ouvir soletrar as letras.
 
Alô Buenos aqui é o Gurguilho.
 
Faz favor, por favor. Respondeu Buenos já aborrecido por ser uma voz masculina. É que Buenos, por vontade própria, só tinha funcionárias à volta dele. Sentia que dessa forma teria sexo quando, como e com quem lhe apetecesse.
 
Era um fartote, dizia ele virado para o espelho que utilizava para pentear o cabelo nas horas mortas.
 
Olha, o Dr. Se Vier, estás a ver?
 
A ver num estou.
 
O Dr. Se Vier que diz que é teu grande amigo, quer uma entrevista no nosso jornal.
 
Manda-o mijar nas cobinhas!
 
O Dr. Se Vier não se conformou com este desfecho e depois de muito pensar decidiu mudar de armas e bagagens para a praça onde ficava a Câmara, de forma que pudesse apanhar Buenos distraído e confrontá-lo com a sua candidatura.
 
Esperou, esperou, esperou, até que por volta das 11h30 sai um tipo vestido de preto de dentro dum BMW. É ele, pensou Se Vier.
 
Passo rápido em direcção ao vulto, só muito próximo se apercebeu que era o outro, o que está de saída.
 
Então Dr. Outro, bem disposto? Disse Se Vier para disfarçar. O Outro nem respondeu.
 
Só por volkta das 17 horas quando já abria a boca de sono e sentia-se como um funcionário público com horário a cumprir é que Se Vier apanhou Buenos escondido atrás da porta a espreitar uma funcionária conhecida por ter seios fartos e usar mini-saia.
 
Apanhei-te seu malandro. Dá aí um bacalhau, disse Se Vier.
 
Então, que se passa? Rugiu Buenos.
 
Meu grande amigo Buenos, sabes que somos amigos de há muitos anos, não sabes?
 
Diz lá que estou com pressa para apanhar a carreira.
 
Sou candidato pelo partido sindicalista e quero-te já dizer que te vou derrotar.
 
Num tens vida. Fumas charuto?
 
Não.
 
Bebes tequilha?
 
Não.
 
Gostas de pizza?
 
Não.
 
Atão num tens vida. Disse Buenos em alusão à sua experiência como viajante.
 
Podias arranjar uma entrevista no jornal do Gurguilho.
 
Por seres meu amigo e se disseres que és meu amigo eu arranjo, caso contrário bai mijar nas saquinhas.
 
No dia da entrevista Se Vier meteu uma gravata com umas calças de ganga e um blazer. Sentiu-se candidato e o partido sentiu que tinha um... ... ...artista.